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Receita
para um Edifício Residencial Básico
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Certo dia, recebi um e-mail, que muito chamou minha atenção. Tratava-se de uma receita para compor uma música baiana ou, como se prefere falar atualmente, uma "axé music". Basicamente, o trabalho que se teria compondo tal canção seria o de alternar em uma sequência, não necessariamente lógica, as palavras-chaves: bundinha, pingulinho, na frente, por trás, mexer, rebolar, balançar, subir, descer, mainha, painho, gostoso, quero mais, boquinha, tchan, tchen, tchin, tchon, tchun, ai, ui e aqui acrescente todos os sinônimos que este vasto vocabulário permite. Quanto à melodia, tudo tranquilo: todas as músicas têm a mesma, basta alternar a letra. E sobre os intérpretes, não perca tempo se preocupando com uma besteira dessas, apenas examine qual a medida do seu quadril e providencie água-oxigenada e "alisabel" para os mesmos. Pronto, seguindo essas regrinhas, faz-se uma "axé music" da melhor qualidade. E, com o mesmo raciocínio lógico, produz-se uma maravilhosa música sertaneja ou um pagode, alternando-se apenas a temática para uma desilusão amorosa, ajustando as calças dos cantores e mudando o ritmo do teclado eletrônico. Pensando em como a arquitetura e o projeto arquitetônico nada mais são do que o rebatimento da nossa realidade, percebi que é perfeitamente possível elaborar tal receita para a nossa tão sofrida profissão, em que o cliente já chega exigindo o projeto para ontem, afirmando que um prazo maior não se justifica, já que o esforço que fazemos é apenas o de um desenho ou rabisco. Porque não facilitar a nossa vida, com uma fórmula básica de apoio projetual? Corra, pegue seu bloquinho, caneta e anote. Para quem perder alguma etapa, a Ana Maria Braga repetirá no "Mais Você". RECEITA PARA UM EDIFÍCIO RESIDENCIAL BÁSICO Ingredientes: - 1 frontão com um vazio circular no meio. - Várias colunas gregas, de preferência coríntias, sem função estrutural. Alguns até ousam, querendo dar um uso ao elemento, mas isso descaracteriza por completo o projeto. - Gabarito máximo - Não mexa em time que está ganhando. Especifique como material de acabamento cerâmica nas cores mais contrastantes (roxo, rosa, amarelo, vermelho e preto), de maneira que o edifício induza à atenção e choque o transeunte, se destacando do entorno medíocre. Não esqueça das texturas também. - Nada de recuos. Em homenagem aos 500 anos do Brasil, siga a tradição colonial e inicie a edificação logo após o passeio. E se for possível englobar o passeio, melhor ainda. - Perca sua pequenez e se entregue à globalização indiscriminada. Dê ao seu projeto um toque internacional, usando em diversos pontos características típicas de países europeus e do padrão americano, nossa maior fonte de pesquisa. Faça com que o habitante não tenha a menor idéia em qual local do mundo ele se encontra. - Copie, copie, copie. - Em relação a planta, não desperdice horas fazendo outra. Somente dê um ctrl+c no primeiro pavimento tipo que você localizar no seu computador. Caso você ainda não tenha o seu e ou não consiga emprestado de ninguém, elabore um bem simples: capriche na área da sala de estar, e reduza ao máximo a dos quartos; jogue a cozinha, área de serviço e quarto de empregada para oeste, de forma a receber toda a insolação da tarde (não perca tempo pensando em brises ou qualquer outro tipo de proteção solar); e somente o banheiro do casal é amplo e espaçoso, esqueça qualquer cuidado com exaustão. - O quarto de empregada merece destaque especial. Nesse assunto, a dica é compactar. Caso a utilitária necessite abrir a porta de seu guarda-roupa, especifique uma cama retrátil para a liberação de espaço. E no banheiro, permita que ela utilize o vaso sanitário, a pia e o chuveiro simultaneamente. - Solte o estilo Luís XIV que existe em você, use e abuse das mais diversas formas decorativas e ornamentos. Mas atenção, tudo de uma forma super gratuita, para não parecer contraditório. - Seu projeto não precisa de um terreno prévio, ele se adequa a qualquer planeta. - Nada de se voltar para questões banais de conforto ambiental, racionalidade construtiva, economia ou funcionalidade. O que importa é a forma, que, preferencialmente, deve ser a metáfora de algo presente no imaginário popular. Exemplos: jangadas, dunas, tapiocas, rapaduras, etc. - Não desperdice neurônios cursando 5 anos da faculdade de arquitetura. Faça em uma semana um curso de "Técnicas Decorativas" num supletivo qualquer. - Jamais leia ou se baseie em arquitetos arcaicos como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Lelé ou Vilanova Artigas. Eles não sabem o que dizem ou fazem. Pronto, eis um autêntico projeto de arquitetura, que se vê constantemente após um breve passeio em alguma parte da sua cidade. Fácil, né? E você se perguntando como aquilo foi feito ou quem projetou aquela coisa... Mais do que uma piada, fica aqui o alerta da nossa atual situação. Como regredimos tanto? Como não demos continuidade a toda uma arquitetura brasileira tão bem sucedida e tão recente? O que aconteceu e o que vem acontecendo? Quem sabe, se nos propusermos a discutir, debater, pesquisar e, acima de tudo, refletir mais, veremos as respostas que estão debaixo dos nossos narizes. É sair da inércia e partir para a retomada de uma dignidade projetual e arquitetônico. Mas se você estiver indisposto ou cansado, é só abrir seu bloquinho, rever suas anotações e fazer tal e qual como manda a receita. fonte: COBOGÓ |